quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Vitória imerecida


Neste momento está a desenvolver-se (no espaço de comentários do respectivo post) um debate filosófico de alto nível entre os caros colaboradores Aleg e Reinato, tudo em volta do tema do post "Motivação no Xadrez". Em reacção a este tema eu limitei-me a produzir dois posts sobre a derrota e o desgosto provocado por ela.
Desta vez apetece-me abordar um tema muito próximo, mas com um desfecho emocional diametralmente oposto: a derrota iminente que se transforma como por milagre numa vitória inesperada.
Acho que quase todos os xadrezistas já passaram por esta experiência. Todos conhecemos o fenómeno e sobretudo a sensação da vítoria imerecida: já estávamos conformados com uma derrota inevitável, vemos a continuação ganhadora do nosso adversário (outro máximo do GMI Donner: "É curioso como o desespero aguça a nossa percepção do jogo"), mas de repente somos bafejados por um golpe de sorte...
Aplica-se aqui o princípio da razão inversa: quanto menos merecida a vitória, mais saborosa ela fica. É feio, mas é assim.
Agora: comentar ou até analisar uma vitória assim pode ser considerado um comportamento duvidoso....mas é tão aliciante, um tipo de auto-flagelação com "happy end"! S.M. no xadrez!

Então: cá vai!
Numa tarde tórrida em Junho 1995 as equipas de Voz de Operário e NX de Faro lutaram em Lisboa num confronto directo pela manutenção na 1ª Divisão. Chegou a última hora de jogo e as coisas estavam feias para o clube lisboeta: a perder por 2-1 e uma posição completamente desesperada no segundo tabuleiro (diagrama aqui acima).
De facto, jogando de pretas contra Jorge Gomes, eu já devia ter abandonado o jogo umas 15 jogadas antes. (Quem estiver interessado pode rever esse fragmento da partida em http://gxalekhine.blogspot.com/2005_04_01_archive.html , post 17 de Abril , mas é um espectáculo pouco edificante. Vou agora transcrever uma parte deste post). "Só que num confronto de equipas nunca se abandona antes do mate iminente. Na posição do diagrama este momento estava a chegar: farto, eu ia abandonar depois de uma jogada qualquer da torre a8....quer dizer...
O meu adversário jogou 54. Tf8...torre f8!!!..torre f8???... Ainda sinto o sangue a martelar na minha cabeça, a contracção dos músculos abdominais: as pretas ganham!!; 54...Ce5+; os jogadores das duas equipas em volta do tabulereiro, o olhar incrédulo de Henrique Galvão, um suspiro muito profundo do meu adversário, tipo "isto é muito injusto", e afinal uma gargalhada contida de todos os presentes.

A situação era mesmo de loucos: as poucas peças pretas (e também o peão branco em d5!) estavam todas nos sítios certos para possibilitar o mate depois de 55. Re4 - Ta4+; 56. Cd4 - Txd4 mate. Os dois minutos que me restavam no relógio foram suficientes para ganhar o jogo após 55. Rxf4 - Cg6+ etc."
Depois do encontro fomos todos beber um copo numa esplanada na Graça, afinal o empate beneficiava ambas as equipas.

2 comentários:

aleg disse...

Embora não me saiba bem nenhuma vitória imerecida, distinto é quando a competição for por equipas...
Viva o G.X. Alekhine,
viva a Amizade!

Rini Luyks disse...

É verdade, Aleg, senão fosse pela equipa provavelmente muitas vitórias imerecidas não aconteciam.
Outra coisa é celebrar uma vítoria imerecida. Celebra-se em silêncio, por respeito pelo adversário, também para não enfurecer Caissa: numa próxima oportunidade ela podia facilmente servir-nos uma derrota imerecida...