sábado, 25 de setembro de 2010

Piloto automático!?

Hoje, tal como ontem, a selecção portuguesa masculina na Olimpíada não conseguiu superar uma equipa teoricamente acessível. Continuando a comparação com o futebol do post anterior: foi 4-4 há três semanas no futebol contra o Chipre e foi 2-2 hoje no xadrez contra a Albânia (Shqiperia em albanês, podia ser um neologismo em português: foi uma esquiperia).

O final dramático a seguir até me fez lembrar o já famoso discurso de Gilberto Madail sobre o "piloto automático"...

Com Portugal a ganhar por 2-1 MI Diogo Fernando (de pretas) tinha que defender esta posição no 1º tabuleiro contra MI Dritan Mehmeti. Parece completamente empatado... e é!
Fernando jogou 74...Rd4, pois 75. f4 - gxf3+; 76. Cxf3+ - Re4 (claro, não 76...Cxf3??; 77. Rxf3 - Re5; 78. Rg4 +-) e não se passa nada: empate; 75. Rf1 - Re4; 76. Rg2 - Rd4??


Foi piloto automático? Qualquer outra jogada do Rei empatava.
77. f4! - Cg6 agora 77...gxf3+ perde: como antes 78. Cxf3+ - Cxf3; 79. Rxf3 - Re5; 80. Rg4 + - mas agora também 78...Re4; 79. Cxe5 - Rxe5; 80. Rh3! (eis a diferença) + -; 78. Cxg4 - Re4; 79, Cf2+ - Re3; 80. Ch3 - Re4; 81. Rf2 - Cf8; 82. Cg5+ - Rd4; 83. Rf3 (1-0).
Instrutivo, mas doloroso (de facto este fragmento não ficava mal na minha colecção pessoal tragi-cómica de palhaçadas no xadrez...).
No ranking inicial tanto a equipa portuguesa masculina como a feminina ocupa a posição 59. Neste momento as senhoras cumprem razoavelmente: posição 54 com um resultado de 50%.
Os homens terão de melhorar a posição 112 que ocupam agora...

A Vingança: Holanda 3 - Espanha 1!

Um pouco de chauvinismo holandês: ontem houve "King Loek"!

Na quarta ronda da Olimpíada começaram a aparecer os primeiros confrontos entre os candidatos às medalhas.
Rússia - EUA 3 - 1 (com um emocionante empate entre Kramnik e Nakamura) e Hungria - China 2,5 - 1,5 (com Judite Polgar em grande forma).
A Arménia ganhou à terceira equipa russa com Aronian a brilhar contra Jakovenko:


38. Be8! - Ca6; 39. Ce5 - cxd4; 40. exd4 - g5; 41. Bxf7!! - Txe5+; 42. fxe5 - Rxf7; 43. Tc6 - Cb8; 44. Tc7+ - Be7; 45. b3 - Ca6; 46. Tb7 (1-0).
A Georgia cilindrou a Noruega (3,5 - 0,5) com Carlsen a perder contra Jobava!
Ainda há sete equipas com quatro vitórias: Rússia 1, Rússia 2, Arménia, Georgia, Hungria, Vietnam(!) e...Holanda!
O xadrezista holandês, amante do bom futebol, não pode ficar indiferente à vitória de ontem contra a Espanha: 3 - 1, com King Loek van Wely a vencer o grande Alexei Shirov!

Shirov jogou 45...a5? (ele devia tentar 45...Ce7; 46. Txg8 - Rxg8; 47. Cxa6 - Cc6; 48. Bb6 - Tb2); 46. Bg4! - Cxf4; 37. Tf5+ (1-0).

Portugal (com mais uns 500 pontos de Elo do que a equipa adversária) decepcionou, não conseguindo mais do que um empate 2 - 2 contra a África do Sul.
A Bélgica quase causou sensação, perdendo apenas tangencialmente 1,5 - 2,5 contra a Cuba... uma equipa com mais de 250 pontos Elo de vantagem em cada tabuleiro!
São os encantos da Olimpíada.
Mais info:

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Carlsen - Galego na Olimpíada!

Não é todos os dias que o melhor jogador de Portugal tem a oportunidade de defrontar o melhor jogador do mundo, mas hoje Luís Galego jogou contra Magnus Carlsen na segunda ronda da Olimpíada em Khanty-Mansiysk (foto publicada no site "xadrez64").
A partida em http://ugra-chess.com/liveboard?gameid=1001020351&ln=en&tmnt=1 .

"Carlsen ganhou com naturalidade" seria um comentário esperado, mas segundo umas primeiras análises com o computador Galego teve algumas oportunidades.

Posição após 10. 0-0: uma Defesa Catalã perfeitamente normal, uma continuação habitual seria 10...b6 e 11...Bb7. Galego jogou 10...e5, o que também é possível.

Posição após 21. e6 - fxe6: aqui Fritz indica 22. Dxe6+ - Rh8; 23. Df7! com vantagem branca, mas Carlsen jogou 22. Rh1(?!) e agora Galego podia ter respondido 22...Txd4!?; 23. Dxe6+ - Rh8; 24. Txd4 - Cc2; 25. Tde4 - Cxe1; 26. Txe1 - Tg8! (Fritz) com igualdade ( 27. De7 - Df2).
Aconteceu 22...Dd5; 23. De3(?!) - Dxa2;

24. Cxe6 (diagrama).
Agora Galego falhou com 24...Txd1?
Segundo o computador as brancas não conseguem vantagem na sequência 24...Te8!; 25. f5 - C4d5; 26. De5 - Te7; 27. Bxd5 - Cxd5; 28. Ta1 - Db3; 29. Txa7 - Tae8; 30. Ta3 - Db6; 31. De2 - Cc7 (...g6!?); 32. Te3 - Cxe6; 33. Txe6 - Txe6; 34. dxe6 - c5 = !
Após 24...Txd1; 25. Txd1 - Dxb2 (ou 25...C4d5; 26. Bxd5 - Cxd5; 27. De5 - Cf6; 28 Td7!); 26. Cd8! já não houve defesa.
Mesmo assim, Carlsen ainda cometeu uma pequena "falha de beleza": em vez de 36. Dxb4(?) ele podia ter dado mate com 36. Dd8+ - Dg8; 37. Df6+ - Dg7; 38. Cf7+ - Rg8; 39. Ch6+! - Dxh6; 40. Bg4! etc.
P.S. Chessbase tem poucas dúvidas sobre a superioridade de Carlsen em todas as fases desta partida: http://chessbase.com/newsdetail.asp?newsid=6690 .
Será que o meu velho Fritz está enganado? O que diz Rybka?

domingo, 19 de setembro de 2010

Anti-problema!?


Ao arrumar a casa deparei-me com uma folha solta duma revista espanhola (já não sei qual). Encontrei a folha em Setembro 1987 algures em Espanha durante uma viagem de autocarro Lisboa-Lyon, uma viagem que fiz quinze vezes entre 1984 e 2002, a caminho das festas das vindimas no Beaujolais.

Na coluna "Ajedrez para todos" aparece o diagram aqui acima, um "problema" do norte-americano William Anthony Shinkman (1847-1933). Pergunta simples: mate em dois.
Pergunta mais invulgar: quantas soluções existem?

Junto com a folha encontrei também uma cópia da carta que escrevi, ainda durante a viagem no autocarro, ao conhecido escritor holandês, mestre e coleccionador de curiosidades de xadrez Tim Krabbé (http://www.xs4all.nl/~timkr/chess/chess.html ), irmão do actor de Hollywood Jeroen Krabbé.
Eu pensava que Tim (que conheci na Holanda nos meus tempos de estudante nos anos '70) podia estar interessado no assunto, mas ele nunca respondeu.
Se calhar vou fazer uma nova tentativa agora através do site dele!

(Aparte: no início dos anos '90 Tim Krabbé ficou rico quando o seu livro "Het gouden ei" foi adaptado para cinema em Hollywood no filme "The Vanishing" (1993, com Jeff Bridges, Kiefer Sutherland, Sandra Bullock), budget 20 milhões de dólares!
No entanto, este filme foi um remake do filme holandês/francês "Spoorloos/L'homme qui voulait savoir" (1988), do mesmo realizador holandês George Sluizer, com um budget dez vezes inferior, mas muito mais aclamado pela crítica.
É que na versão americana existe um "happy ending" que não vem nem no livro nem na versão original!
Eu vi "Spoorloos" em Lisboa, houve pessoas que sairam da sala bastante mal dispostas...
O leitor interessado já tem agora umas pistas para "googlar"!)

Quanto ao "anti-problema": alguém vê mais de 93 soluções!?

quinta-feira, 2 de setembro de 2010