domingo, 9 de janeiro de 2011

Taça de Portugal: GX Alekhine - EDP 2-2

Quase um ano depois GX Alekhine e Clube EDP encontraram-se de novo (post http://ogatodoalekhine.blogspot.com/2010/01/houve-taca-gx-alekhine-clube-edp-35-05.html) na Taça de Portugal.
Em 2010 houve motivo de júbilo após uma vitória folgada, mas ontem só passámos graças aos dois heróis nos primeiros tabuleiros:
Mestre Fernando Silva, veterano desde o ano passado (na foto aqui em baixo com Renato Figueiredo em Skopje, 1972), dissecou os pormenores dum difícil final de damas contra Alberto Fernandes com a paciência dum anjo, mais um grande vitória.
No segundo tabuleiro Alberto Eggert travou uma batalha táctica com Afonso Rodrigues e ganhou convincentemente nos apuros de tempo.

Duas vitórias decisivas e necessárias, pois os colegas nos outros tabuleiros acusaram uma certa falta de prática nos últimos tempos. Renato Vasconcellos, contra o mesmo adversário André Pinto que ele venceu no ano passado, não conseguiu manter o equilíbrio e perdeu um final de torres. A minha partida contra Manuel Almeida foi até à 30ª jogada uma calma Defesa Catalã com muitas trocas de peças, resultando num final de damas.

Na posição do diagrama uma continuação normal seria 30. Dc5, provavelmente seguido de xeque perpétuo das pretas: 30...Df5+; 31. Rg2 - De4+; 32. Rg1 - Db1+ etc.
No entanto, joguei 30. De5+?! - Dxe5; 31. fxe5 - Rh6! eu só contava com 31...f6?; 32. exf6+ - Rxf6; 32. g4! ou 31...g5?; 32. g4!; 32. Rg2 - Rg5; 33. Rf3? aqui 32. e6! - fxe6; 33 Rf3 - Rf5; 34. h3! ainda segurava o empate 33...Rf5; 34. h4? - Rxe5; 35. Rxe3 - f6! com vantagem decisiva; 36. Rf3 - g5 ou 36...Rd4! ; 37. Re3 37. g4 - hxg4+; 38. Rxg4 - gxh4; 40. Rxh4 - Rf4; 41. Rh5 - a5 etc. 37...gxh4?; um gesto "generoso" das pretas, ganha 37...g4; 38. Rd3 - f5; 39. e3 - Rd5 ou 39. Re3 - f4+; 40. gxf4 - Rf5 com "Zugzwang" em ambos os casos; 38. gxh4 - f5; 39. b4 - b5; 40. a3?? apuros de tempo ou não, Palhaço do Xadrez ou não... este pequeno movimento de peão (de duvidoso valor circense) será uma das piores jogadas da minha carreira, só explicável por cansaço e resignação: empatava 40. Rf3 - f4 (após 40...a6?? as brancas até ganham!); 41. e3 - fxe3; 42. Rxe3 - a6; 43. a3 = 40...f4+; 41. Rd3 última tentativa em desespero... - Rd5! 0-1 41...Rf5??; 42. Rd4 - Rg4; 43. Re4 - a6; 44. Re5 - Rg3; 45. Rf5 - f3; 46. exf3 - Rxh4; 47. f4 - Rg3; 48. Ke5 =.
Proponho ao capitão de equipa um jogo de auto-suspensão para a próxima ronda da Taça, é o mínimo...
P.S. 10-1-'11: concordo com o comentário do Albertus, outro tipo de castigo pode ser mais eficaz...

19 comentários:

Albertus disse...

Caro Rini,
é emocionante ver essa foto vintage do jovem veterano Fernando Silva, com essas peças pequeninas de outros tempos... Também é emocionante ver como já sendo "veterano", o entusiasmo e a inventiva que continua a demonstrar.
Quanto à tua auto-suspensão, tendo em conta que refere-se a um "auto-castigo", não é propriamente o remédio para a falta de tabuleiro que todos nós estamos a ter.
Abraço!

Albertus disse...

Por acaso, do que vi no jogo do Renato, foi uma posição um bocado chata, por ter que defender aquele peão bloqueado em b5. Gostaria de ver como se chegou até lá, mas não o pretendo muito, porque o Renato tem uma outra preciosa "preocupação" agora, pela qual dou-lhe os meus sinceros parabéns!

Rini Luyks disse...

Nisso tens razão, Albertus (auto-suspensão não é remédio para falta de tabuleiro).
Se calhar um castigo mais apropriado será analisar a minha partida com dois ilustres veteranos alekhinistas, actualmente os meus alunos.
Realmente o final de peões não é desprovido de algum valor didáctico, doa a quem doer...

P.S. E parece que até este querido portátil HP concorda: quais são as letras que ele me obriga a meter na caixinha "verificação de palavras"?
SCHRACHEC! Perfeita descrição onomatopaica de minha performance no sábado!

Reinato disse...

Olá Alberto e Marinus.
Não me digam nada, estive sempre bem durante o jogo, pelo menos é o que me diz o Sr. Fritz. Acontece o que aconteceu últimamente, quando começo a ficar com pouco tempo fico nervoso e faço asneira. Isto aconteceu nos lances 33 e 34, dei dois peões de seguida, uma perfeita estupidez, o Fritz nessa posição dava equilibrio total 0.0.
Ainda consegui recuperar um mas num final com u rei cortado era impossivel fazer o que quer que seja. O meu adversário jogou bem, limitou-se a aproveitar os erros.
um abraço
Renato

Albertus disse...

Olá Renato,
não te digo nada, vou só te escrever, pode ser?:))
O alemão sabe, embora depende da posição. Por vezes o seu estilo "no me gusta", mas reconheço que mesmo assim é terrivelmente eficaz.
O teu adversário, de facto, foi seguro na fase final, e inaugurou mais um clássico, desforrando-se da derrota do ano passado. Pagaria por ver mais um jogo entre vocês...:)

Rini Luyks disse...

Certo, Renato, de facto só vi o teu final de torres com o rei cortado, pois antes estive a cometer o mesmo tipo de "asneiras" que mencionaste (consequências de nervosismo, sintóma típico de "falta de tabuleiro") sem olhar para os jogos dos colegas.

Albertus disse...

Os castigos não servem para nada...

Rini Luyks disse...

Dás-me uma oportunidade de baliza aberta, Albertus! :)
Os seguidores dos ensinamentos de Sacher-Masoch e Marquês de Sade terão uma opinião diferente em relação aos castigos.
E desconfio que eles estão mais do que sobre-representados nas fileiras dos xadrezistas, aiai...

Albertus disse...

Ó Rini,
eu diria que como os xadrezistas formam parte da Sociedade, a faixa dos "auto-flagelados" é bem mais extensa...
Vou tentar de "explicar" os porquês, pelo menos fisiologicamente...

Albertus disse...

As vias de obtenção do prazer como finalidade são, de facto, tantas, quantos seres há no Universo (o Renato não me deixará mentir:))
O sofrimento, como consequência dum castigo recebido ou auto-perpetrado, segundo a fisiologia humana, pode devir numa sensação de gozo.
O sistema nervoso central (SNC) é o responsável directo, como é sabido, da organização e controlo dos eventos mais variados dentro do corpo humano. O que nos interessa é a sua parte vegetativa e involuntária, composta pelos sistemas nervoso simpático e parassimpático.

Albertus disse...

Em base deste enunciado, torna-se possível, embora duma forma simplificada, argumentar fisiologicamente a procura pelos seres vivos (com especial tendência na raça humana) do prazer, neste caso, através do sofrimento.

Albertus disse...

Tendo em conta que durante o evento (o acto de castigar/flagelar) o organismo atravessa um importante "stress", as glândulas supra-renais produzem uma substância, chamada adrenalina. Dita hormona intervém tanto na inibição como na estimulação duma grande quantidade de processos, tais como a vasoconstrição ou
relaxamento muscular, entre muitíssimos outros.
Pois, após esse aluvião de adrenalina, é que começa a parte do procurado "prazer", porque lá temos montes de partículas, chamadas serotoninas, conhecidas também pelo nome de "hormona do prazer" e das endorfinas, apelidadas de "hormonas da felicidade" que compensam mal ou bem aquele sofrimento, induzido ou não...

Albertus disse...

E mais nada, pá.
Parece que o sofrimento (e o castigo é só uma das formas de procurá-lo) é a maneira mais barata de conseguir o prazer, dali, talvez é que há tantos adeptos...

Soylent Green disse...

A auto-suspensão não é um castigo adequado porque os jogadores do Alekhine, de um modo geral, carecem de treino. Assistir a um debate (completo) da Assembleia da República parece-me uma penalização mais apropriada.
Abraço.
F Silva

Rini Luyks disse...

Então Albertus, seria bom se o sofrimento da derrota no xadrez também fosse transformado em prazer e de preferência logo depois do jogo.
Uma pequena fantasia: já falámos uma vez (post + comentários "O melhor Casto, 10 de Junho 2009) sobre o subaproveitamento do andar de cima da sede do nosso clube. Imagino lá agora um pequeno salão S.M. com sofá de seda rústica e a presença duma menina com "rhythm stick" tipo aquela na foto do próximo post. No sábado passado por exemplo tinha-me dado imenso jeito: depois da derrota no tabuleiro o jogador recebe um castigo físico imediato, um valente espancamento prazeirento e purificador.
Vantagem: um gajo não fica com o fim-de-semana estragado, a vociferar a toda a hora: "F***-se, como é que se perde uma m**** destas, pá??".
Possível desvantagem: risco de resultados viciados. O que sabe melhor: a vitória no tabuleiro ou um espancamento depois da derrota? Nada fácil...

Rini Luyks disse...

Um caloroso bem-vindo ao Mestre Silva no blogue do "Gato"!
O assunto de conversa (castigo depois da derrota) podia ser mais edificante, mas paciência.
Claro que o Mestre tem razão: falta de treino, falta de tabuleiro.
Falando por mim: é o preço a pagar pela vida de artista (cada vez mais) precário...cada vez mais biscates do que trabalho a sério.
Xadrez cada vez mais virtual a horas impróprias no computador e cada vez menos de "carne e osso" ao tabuleiro.
Mesmo assim: o castigo proposto pelo Mestre acho demasiado cruel, prefiro o espancamento S.M., pode ser!?

Albertus disse...

Entretanto, quando eu disse que o castigo não servia para nada, era no contexto da aprendizagem que o queria enserir...
O castigo é actualmente e há séculos e séculos, o único método de ensino geral.
Aliás, o verbo ENSINAR vem do latino "insignare", o que significa literalmente GRAVAR, coisa que pressupõe uma superfície inerte e sem contestação, e uma ferramenta capaz de deixar sobre ela o que for que se queira gravar. Se o Gravador é um Artista, temos verdadeiras obras de arte, mas como os verdadeiros Artistas não abundam, e as Escolas de Ensino Básico/Médio/Superior/etc. sobram, temos montes de "gravuras" medíocres, sem iniciativa, nem percepção de o que fazer com a informação nelas gravada...

Albertus disse...

Distinto seria se a metodologia se basasse num modelo que estimule a aprendizagem, onde mais uma vez a etimologia fala por si só: APRENDER = do latim, "Apprendere", o que significa "APANHAR, TOMAR, AGARRAR"
Ninguém apanharia o que não quer, tornando à aprendizagem num exercício de conciência.
Dentro do actual sistema de valores e prioridades, qualquer outro sistema educativo parecerá utópico, não passando, como muito, duma experiência isolada.

Rini Luyks disse...

Claro que "desviei" a tua frase "castigo não serve para nada" logo para fora do contexto, Alberto, para possibilitar mais um post D.O.C. (Dirty Old Chessman) ;)
A tua pequena reflexão sobre "insignare" e "apprendere" parece-me certeira. Com tanto avanço tecnológico é de facto espantoso que os modelos de ensino geral se tenham mantido tão arcáicos e estáticos, servindo apenas para reproduzir o mesmo tipo de sociedade.
Finais anos´70/iníco anos´80 tive a sorte de participar (numa curta carreira de professor de química) nalguns projectos do chamado "Middenschool" na Holanda, baseados em modelos de ensino inovadores como "Jenaplan" e "Montessorischool". Não havia turmas com ensino frontal, mas projectos em grupos, a motivação do aluno estava em primeiro lugar, pois "ninguém aprende quando não quer aprender". Convencido da utilidade de certas displinas para um projecto, o aluno aprende.
Todos os educadores estão de acordo com este princípio, mas pôr isso em prática é muito difícil e exige muito de todos os intervenientes.
Na Holanda o projecto "Middenschool" não vingou (pelo menos nunca mais ouvi falar).
Também: para depois ingressar no ensino superior os alunos tinham que fazer um exame final igual àquele das escolas "tradicionais", que castigo!